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Sábado, 16 Out 2021

100 anos de Luiz Beltrão, um ícone da Comunicação Brasileira

Nos seus textos, Beltrão traduzia um Brasil ainda desconhecido para muitos: o Brasil dos grupos marginalizados.

27 Abr 2018 às 22:58
Lawrenberg Advíncula da Silva
Lawrenberg Advíncula da Silva

Escrever sobre o perfil de alguém é, por vezes, uma missão meio injusta. Seja tanto para quem se dispõe a traçar uma biografia, quanto pelo fato de que toda reconstituição histórica transporta consigo uma série de contradições, por mais fidedignas que ela aparenta ser. E no caso de falar sobre a memória de um personagem da envergadura do jornalista Luiz Beltrão, sempre será desafiador. Ainda mais quando, junto ao seu registro, comemora-se uma data tão simbólica: nesse 2018 esse pernambucano de nome peculiar completaria 100 anos (...)


No presente texto, abro dialogo para sabermos um pouco da história de Luiz Beltrão de Andrade Lima, jornalista, professor, pesquisador e um dos maiores estudiosos de Brasil do século 20. Uma história que, em tempos de tantas rupturas democráticas e ataques aos direitos da classe trabalhadora brasileira, parece-nos alertar de uma velha máxima: a qualidade de uma democracia é diretamente proporcional ao tipo de imprensa praticada nela.


Nascido na cidade de Olinda, em 1918, Luiz Beltrão desde sua infância de educação seminarista já esboçava o interesse por uma sociedade e imprensa mais justa às causas sociais. A inclinação religiosa e humanista dele seriam uma marca profissional, logo revelada nos primeiros textos de reportagem no jornal O Diário de Pernambuco, na década de 1930. Nos seus textos, Beltrão traduzia um Brasil ainda desconhecido para muitos: o Brasil dos grupos marginalizados. Foi repórter e redator ao longo de três décadas, também atuando nos impressos Correio do Povo e Jornal Pequeno, nas agências de notícias Asa Press e France Press e nas revistas Tudo, Guanabara Press, São Paulo Press e Capibaribe.


A militância de Beltrão levou à presidência da Associação de Imprensa de Pernambuco. Lá, ele teve uma participação direta na criação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais daquele estado. Mas foi na universidade que o pernambucano obteve o reconhecimento, de fato.


Trajetória acadêmica de Beltrão

Sua trajetória acadêmica teve início com sua monografia intitulada “Iniciação à teoria do jornalismo”, em 1959, e consequentemente quando, segundo o professor José Marques de Melo (2000), ele começou a atuar como professor em Jornalismo. Beltrão lecionou: na Faculdade de Filosofia Nossa Senhora de Lourdes, em João Pessoa, Paraíba, em 1960; na Universidade Católica de Pernambuco, do qual contribuiu para a criação do curso de Jornalismo de lá e para a fundação do Instituto de Ciências da Informação (ICINFORM); e na Universidade de Brasília e no Centro de Estudos Universitários de Brasília (CEUB).


Na década de 1970 foi convidado a trabalhar na Fundação Nacional do Índio (FUNAI), contribuindo decisivamente para uma melhor relação entre a imprensa e sociedade brasileira para com as populações indígenas. O resultado deste trabalho foi o livro “O índio, um mito brasileiro”, publicado pela editora Vozes em 1977.


Enquanto pesquisador, a palavra protagonismo marca a atuação de Beltrão no Brasil e mundo afora. Ele fundou a revista Comunicação & Problema, em 1968, o primeiro periódico do Brasil, e é considerado o primeiro doutor em Comunicação, com a tese intitulada “Folkcomunicação: um estudo dos agentes e meios populares de informação de fatos e expressões de idéias”, defendida em 1967. Foi membro atuante de diversas associações latino-americanas de Comunicação como a CIESPAL (Centro Internacional de Estudios Superiores de Periodismo para América Latina), articulando encontros com pesquisadores dos Estados Unidos, Chile, Equador e Colômbia e internacionalizando trabalhos brasileiros. Lançou uma série de livros nas áreas da ficção, comunicação, folkcomunicação e no ensino de ensino de jornalismo, num período onde a censura e a perseguição ideológica da ditadura civili-militar imperavam nos espaços acadêmicos.


Entre as principais publicações, vale citar: “Iniciação à teoria do Jornalismo” (1959), “Técnicas de jornal” (publicado pelo CIESPAL em 1964), “A imprensa Informativa” (1969), “Comunicação e Folclore” (1971), “A serpente no atalho” (1974), “Jornalismo Interpretativo” (1976), “Jornalismo Opinativo” (1980).  Mas de todas elas a que mais me inspirou e inspira foi “Folkcomunicação, a comunicação dos marginalizados”, em 1980, cujas discussões retratam a realidade dos brasileiros situados à margem de tudo.


Beltrão teve reconhecimento pela comunidade acadêmica como pioneiro dos estudos sobre comunicação no Brasil. O seu nome foi escolhido pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (INTERCOM) como prêmio nacional que congratula os maiores pesquisadores e instituições da área. Ou seja: o nome do jornalista pernambucano tornou-se sinônimo de mérito científico.


Os últimos anos de vida de Beltrão são ao lado da sua esposa Zita Lima, em Brasília, capital federal. Ele faleceu numa sexta-feira de 24 de outubro de 1986, deixando, além de uma vasta produção acadêmica e literária, prêmios e reconhecimentos, um legado pioneiro, visionário, corajoso! Um patrono da comunicação popular, a Folkcomunicação; um ícone da comunicação brasileira, sem dúvidas!

 

Referência: MARQUES DE MELO, José e GOBBI, Maria Cristina. Gênese do Pensamento Comunicacional Latino-Americano. O protagonismo das instituições pioneiras: Ciespal, Icinform, Ininco. São Bernardo do Campo: Unesco/Umesp, 2000.

*Lawrenberg Advíncula da Silva é professor do curso de Jornalismo da Unemat desde 2010 e editor-geral da revista científica Comunicação, Cultura e Sociedade (RCCS).

e-mail: lawrenberg@unemat.br

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