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Sábado, 16 Out 2021

O poder das falsas histórias e notícias

quem nunca leu na imprensa que a reforma trabalhista vai melhorar a vida do trabalhador brasileiro?

27 Mai 2018 às 17:11
Lawrenberg Advíncula da Silva
Lawrenberg Advíncula da Silva (Arquivo pessoal)
Quem nunca leu na imprensa que a reforma trabalhista vai melhorar a vida do trabalhador brasileiro? Ou tenha ouvido em algum programa de rádio que a ditadura civil-militar de 1964-85 nunca existiu? Ou ainda: tenha assistido uma reportagem na TV em que comunistas são chamados de câncer do mundo? De que todo homem barbudo é homem-bomba? Enfim, histórias e mais histórias que, em tempos de mau jornalismo e “leitores desatentos”, chegam-nos como verdades absolutas. Ou pior: com o poder de alterar o presente e o futuro de toda uma comunidade, uma nação, diversas gerações (...)

Do ponto de vista histórico, vale afirmar que a velocidade com que as falsas histórias sempre se pulverizam e cristalizaram no cotidiano sempre foi ligeiramente desproporcional com que a versão real, fidedigna, aparece, propaga-se.  Ou seja: é mais fácil ouvirmos e lermos uma mentira, do que o contrário. 

Ninguém passa incólume dos efeitos de uma falsa história, um boato. Ainda mais quando elas se tornam notícias (fakenews) e estão estampadas na primeira página de um jornal de grande circulação. Nesse caso, mais do que desinformarem sobre um acontecido, elas tornam-se verdadeiras máquinas de destruição de reputações públicas e razões das formas mais vis de linchamento. 

Quem aqui não se lembra do caso da Escola Base?!? Quando os principais jornais do Brasil, incluindo o Jornal Nacional (Globo), publicaram que os donos de uma escola de São Paulo cometeram abusos sexuais em crianças de 4 anos. Naquela ocasião, idos de 1992, os envolvidos não foram ouvidos pelas equipes de reportagem e a imprensa sentenciou e condenou os donos da escola com base em opiniões de um grupo de policiais, ao invés de um laudo, um parecer (exame de corpo de delito e outros documentos comprobatórios). Moral da história: a justiça tardou, mas provou que não houve crime de abuso sexual. Entretanto, não houve retratação necessária ou indenização condizente dos veículos midiáticos ante o tamanho do trauma (linchamento público, perseguições, ameaças de morte) vivido por aqueles profissionais em diante. 

A culpa não é só de quem produz boatos, mas também de quem acredita e propaga...

Por outro lado, é preciso reconhecer que um boato ou uma notícia falsa só ganha relevância à medida que pessoas, ingênua ou desonestamente, contribuem para suas propagações (e em tempo de redes sociais da internet, compartilha). Basta olharmos nas redes sociais (principalmente: facebook, instagram e whatsapp) o ciclo de um meme, da apropriação caseira de uma imagem, sua descontextualização, depois do compartilhamento e da viralização deste. Um processo que pode ser feito em pouco mais de meia hora de um laptop ou qualquer celular com dados móveis, mas o suficiente para impactar populações de diversos países. 

Essa fácil adesão dos indivíduos às falsas histórias e notícias é, em muitos casos, mais crônico, inconsciente do que propriamente proposital. Nesse sentido, talvez tenhamos melhor psicanálise freudiana. Sobretudo, quando de um lado conclui-se que há uma realidade dura, opressora e castradora de prazeres, e de outro, indivíduos poucos dispostos a aceitar os efeitos dessas castrações. Um retrato da modernidade ocidental e ao que Sigmund Freud já apontava no início do século XX como mal-estar da civilização. Assim sendo: a falsa história e notícia e sua adesão inconsciente ou não estão muito mais no campo da idealização do que da realização – da realidade e seus naturais enfrentamentos. 

Indústria de falsas histórias/notícias 

Da mesma maneira que Freud já tinha percebido uma dificuldade das pessoas lidarem com as agruras da realidade, a propaganda ideológica dos Estados totalitaristas já captara essa fragilidade humana há pelo menos um século atrás. Da propaganda britânica em alusão à predestinação divina de sua burguesia industrial à nazista de Goebbels em tratar judeus como inimigos públicos do povo alemão e transformar Hitler num salvador nacionalista, o que se vê são histórias inventadas e usadas para seduzir uma grande margem da população. Exercem um certo magnetismo massivo, perigoso, ao passo de induzir a população a reações e tomada de posições de acordo com interesses bastante específicos, individuais.

Na Alemanha nazista, por exemplo: a insegurança social da população alemã (desemprego em alta) foi usada como parte indispensável de uma engenharia ideológica, da qual disseminava uma série factoides de modo a incentivar, concomitantemente, o ódio aos judeus e o culto quase cego à figura do ditador Adolf Hitler. 

A lógica da propaganda nazista agia semelhante ao cinema hollywoodiano, na medida que, a partir de ilusões maniqueístas: “definiam” pessoas, ideias e lugares segundo a ótica ficcional de vilões ou mocinhos. Uma lógica que aliena e manipula a opinião pública. 

Vejamos... quem não se lembra da Guerra do Golfo, no início de 1990 no Oriente Médio? Na ocasião, os Estados Unidos viram a hegemonia do seu comércio de petróleo ameaçada para o Iraque e acabaram utilizando o poder de persuasão ideológica da imprensa (CNN) para criar falsos motivos para uma investida militar. E não é que funcionou mesmo! Dessa estratégia midiática de cunho ideológico tivemos um dos mais sangrentos conflitos. 

No Brasil, as falsas histórias recordam desde a presença das primeiras caravelas portuguesas em solo tupiniquim e se se escancara no jornalismo feito por sua maior emissora, a Globo, durante a ditadura civili-militar (1964-85). Se considerarmos tais narrativas, o Brasil foi um país descoberto e pacificado por europeus, depois desenvolvido por militares bancados por investidores americanos. Só que não! 

Em todos os casos citados, aquela velha máxima: da história ser geralmente contada pelos vencedores. E, em tempos de sociedades da informação: publicada pelos vencedores. A longo prazo, e para concluir: pode-se dizer que essas falsas histórias e notícias catapultam as esperanças de diversas gerações. Nelas, o cidadão comum recebe o estigma de uma “anomalia social”, enquanto políticos corruptos são imortalizados como heróis, mártires. Os regimes autocráticos e totalitários são elevados ao status de paraísos cívicos nas páginas dos livros didáticos, enquanto as vítimas de suas tiranias, arquivadas nos registros oficiais como tudo, menos gente – isto é: são coisificadas iguais aos vietnamitas foram em Rambo, numa versão grosseiramente alterada da Guerra do Vietnã.  

*Lawrenberg Advíncula da Silva é professor do curso de Jornalismo da Unemat desde 2010 e editor-geral da revista científica Comunicação, Cultura e Sociedade (RCCS).
e-mail: lawrenberg@unemat.br

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